Um dos músicos que participou da feijoada de lançamento do Clube da Cachaça foi Hernandez não-me-lembro-o-sobrenome. Na verdade, chamá-lo de músico é bondade minha. O que ele é mesmo e um violeiro diletante, que só sabe cantar direito "Guantanamera". O barato do Hernandez é o Sóngoro Cosongo, seu restaurante lá de Barranco, claro!
É justamente no Sóngoro que os cantores-pescadores ensaiam o repertório para o
CD que um certo Imperador do Palo Mojado está produzindo. Os ensaios acontecem toda sexta-feira e já estão virando o pit stop obrigatório da galera antes da balada.
Aliás, a coisa tá bombando tanto que o tal ensaio é a própria balada. Digamos assim, "a nível" de terça-feira do Olodum!!!
Até pouco tempo atrás eu não tinha visto o nome do restaurante escrito e sempre me pareceu uma palavra só, no máximo Songo Rocosongo. Para quem não percebeu a diferença, há. Notem que "Sóngoro" é uma proparoxítona e depois de "Construção", as proparoxítonas foram alçadas a categoria de poesia.
Quando fui lá e vi como se escreve, pronunciá-las me pareceu mais delicioso ainda. Aliás, tão ou mais gostoso quanto comer a comida, não necessariamente nessa mesma ordem. Acho que é porque é a antiga cozinheira da família quem prepara o maravilhoso
chicarrón de pollo, uma das seis maravilhas do cardápio (o forte do Sóngoro Cosongo são os drinques a base de pisco)
Meu único problema é que nem os mais antigos habitues conseguiam me explicar o que significava Sóngoro Cosongo. De uma coisa eu tinha certeza, a origem das palavras é africana, afinal parece até nome de orixá. Pelo sim, pelo não, fui na fonte. E a história consegue ser melhor que a pronuncia.
Me disse Hernandez que quando era criança todas as vezes que o pai iria levá-los a um lugar bem legal, dizia:
- Vamo´ lá, vamo´ sóngoro cosongo...
E sóngoro cosongo era passear, viajar, sair para almoçar, visitar a avó. Aí, um dia eles se deram conta de que sóngoro cosongo era uma emoção! Era a certeza de que uma coisa muita boa iria acontecer.
- Depois, vi em algum lugar que existe uma música cubana que tem o mesmo nome. Mas, para mim, sóngoro cosongo sempre será o que me ensinou meu pai: uma alegria.
Claro que a história de Hernandez deveria me bastar, tão linda e impecável. Parte de um relicário, poderia se dizer. Mas, não resisti: googleei... E o que encontrei, me fez entender por que o pai do Hernandez usava justamente essas palavras para definir o que viria.
Tal como imaginei, a expressão "Sóngoro Cosongo" tem mesmo origem africana e foi título de um poema, transformado em cancao depois, de
Nicolas Guillen, reconhecido escritor afro-cubano, morto em 1939. Num dos sites que visitei, Guillen é descrito como "aquele que mostrou seu compromisso com a pátria cubana e americana, com seus irmãos de raça e com todos os deserdados do mundo".
Por essas e outras que as palavras me fascinam tanto. O que elas guardam é tão maior do que podemos supor...
Songoro Consongo Áy negra Si tu suopiera que a noche te ví pasá Y no quise que me viera A él tú le hará como a mí Quen cuanto no tuve plata Te corrite de bachata sin acoddate de mí sóngoro cosongo de mamey sóngoro la negra baila bien sóngoro de uno sóngoro de tre Aé vengan a be Aé vamos pa be Vengan sóngoro cosongo Sóngoro cosongo de mame