Está começando o período da procissão do "Señor de los Milgros", considerada a mais numerosa do cristianismo em todo mundo e um dos maiores legados que os negros deixaram para a sociedade peruana.
Em Lima, na metade do século XVII, muitos negros escravos vindos da África estavam organizados em confrarias e viviam na zona de Pachacamilla, onde funciona, atualmente, o Monastério das Nazarenas. Lá, eles veneravam a diferentes imagens e rendiam culto aos santos. Uma delas era a de um Cristo Crucificado, que um negro angolano tinha pintado na parede de um galpão, para que protegesse o lugar.
Em 1665, no governo de Luís Enrique Guzmán, um terrível terremoto assolou a cidade de Lima, que ficou destrocada, atingindo, inclusive, a zona de Pachacamilla. Os negros, portanto, tiveram que abandonar o local. Milagrosamente, o muro de concreto com a imagem pintada do Cristo crucificado se manteve de pé.
Anos depois, por volta de 1670, Andrés Leon, vizinho do bairro de San Sebastián, homem simples e de pouco dinheiro, descobriu intacta a imagem abandonada. O homem reforçou o muro e começou a rezar à imagem, pedindo que esta lhe devolvera a saúde, já que os médicos tinham decretado a sua morte em função de um câncer cerebral.
Conta a lenda que o devoto Leon se curou do câncer e, evidentemente, atribuiu o milagre ao Cristo de Pachacamilla. A história correu de boca em boca e rapidamente passou a ser comum, todas sextas-feiras, a reunião de fieis (negros e mestiços, em sua maioria) ao redor do Cristo.
Claro que as autoridades eclesiásticas não viram com bons olhos esta devoção e ordenaram que a imagem fosse apagada. Entretanto, os encarregados da função não puderam cumprir o trabalho: súbitos enjôos, visões e, finalmente, uma violenta tempestade impediram a sua execução.
Ao saber do sucedido, Pedro Fernandez de Castro, conde de Lemos, revogou a ordem e ordenou que se levantasse uma capela para render culto ao Cristo de Pachacamilla, chamando-o de "Señor de los Milagros".
Desde outubro de 1687, depois de que outro terremoto castigasse Lima, uma réplica em óleo da imagem do Cristo percorre em procissão as ruas da cidade. Poucos anos antes, a madre-superiora Antonia del Espiritu Santo, devota do "Señor de los Milagros", começou a utilizar uma túnica roxa para venerar a imagem, popularizando a cor entre os seus seguidores. Essa tradição segue até hoje.
Já encontro senhoras com túnicas roxas andando pelas ruas. É impressionante. Algumas, finas e elegantes, usam a vestimenta com um blazer por cima. Sempre estão muito bem maquiadas e penteadas. Usam jóias, bolsas Louis Vuitton e óculos da Gucci. E, mesmo assim, sem constrangimento algum, passam o mês de outubro inteiro com uma roupa cor de beterraba com uma corda de fibra amarrada na cintura.
Acho curioso. Fico imaginando essas mulheres encarregando a costureira da família uma dezena de trajes roxos (porque mulher chique não repete roupa!!!) para cada dia da semana. Todas iguais, mas novas e, por isso, diferentes. Muitas destas mulheres, branqueadas a forca por meio de tintura e plástica no nariz (campeã de cirurgias estéticas), assumem, de maneira quase sincrética, uma devoção negra, na qual um dos maiores símbolos é, justamente, uma roupa sem adornos, espetacular apenas na cor.
Mais um pouco e vai acontecer como as pulseirinhas do Senhor do Bonfim: capturadas por algum designer de plantão, será alçada a categoria fashion, com uma etiqueta famosa pendurada no verso, avacalhando um evento essencialmente popular.
Enquanto isso não acontece, mesmo ácida, continuo achando essa devoção peruana super interessante. E maravilhosa.
Evidentemente não é uma Louis Vuitton...